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Trajetória de menina só

9 jun

Morar sozinha nunca foi seu ideal de vida. Sozinha pra ela bastava dizer que não moraria com os pais. Mesmo cercada de amigas, ela ainda acreditava que estava morando sozinha. E realmente estava. No início era mais difícil perceber, mas com o tempo, o aumento das tarefas universitárias, profissionais e mesmo amorosas tudo foi ficando mais só, dentro de casa.

Sair do interior. Essa era sim seu ideal de vida. Pudera ela trazer tudo consigo! Pais, amigos, casa, o bairro onde morava e a igreja que frequentava. Não a cidade, já que esta nunca foi por ela admirada. Mas tudo isso precisou ficar para trás. A coragem de menina sonhadora falou mais alto e num instante a vida mudou.

Agora era realidade de cidade grande, engarrafamento, vizinhos ausentes, desconhecidos na rua, um bairro grande e no mínimo estranho. E o que falar da universidade? Uma multiplicidade de pessoas, jeitos, vícios, um turbilhão de informações e um professor carrasco pra tudo começar melhor.

Mas nada disso era motivo de preocupação, apesar do medo inicial e das inseguranças da cidade grande. A relação que manteria em casa, na república onde ela escolheu para morar, é que preocupava. Uma enxurrada de entusiasmo embalou os primeiros meses. Tarefas bem feitas, passeios em conjunto, festinhas, novos amigos, jogos e sono tranquilo. Atitudes típicas de “recém casados”.

Com o tempo nem tudo o que parece é. As pessoas foram se distanciando de sua vida e mostrando seus verdadeiros anseios. A amizade parecia cada dia mais longe e nada poderia ajudar a recomeçar. Uma foi embora para uma cidade distante, e aos poucos desapareceu. Outras continuavam ali, mas pareciam o contrário. Surgiu uma nova, calma, alegre e com bom coração. Mas a menina não apostava mais nada. Nada esperava.

As conturbações ficaram mais constantes. Pressa, tarefas não cumpridas, discussões só pelo olhar, nada de palavras além do bom dia, quando existia. Outra não aguentou, preferiu se mudar antes que a situação se agravasse. Bem fez ela, que não precisou conviver com o amargo das desavenças mal resolvidas do final. A menina permanecia lá, com os mesmos valores de cidade pequena, mas com desejo de voar cada vez mais alto.

Mais uma entrou em sua vida. Animada, faladeira, cheia de energia. O que foi se esvaindo com o tempo e se transformando em dor. Existia algo de errado. Aquele ambiente não era mais o mesmo e a situação precisava ser invertida, enquanto fosse tempo. A menina, que sempre teve espírito de mãe, foi quem tomou a iniciativa.

Ia partir e levaria consigo aquelas que mais estimava. As duas mais próximas a acompanharam. Uma nova república, bem parecida com aquela do fim do período militar brasileiro, estava surgindo. Nova em todos os sentidos. Onde foi possível, um resgate do que estava perdido. A amizade, a vontade de voltar pra casa no fim do dia, a liberdade para falar, cantar, gritar e principalmente, conversar, estava recuperada. Era tudo o que a menina queria, tudo o que precisava. Ela aprendeu que nada acontece por acaso, como bem diziam. Depois da tempestade o que ficam são aprendizados e o que é melhor, a vontade de fazer diferente.

Por Marcelle Desteffani

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Consegue sobreviver?

30 maio

Hoje vamos contar um pouquinho da realidade republicana em Ouro Preto. Na cidade, tipicamente universitária, podemos observar a forte presença das repúblicas públicas ou federais, mantidas pelo Estado, onde os estudantes não pagam aluguel, mas são responsáveis por todas as demais contas da casa, como as de água, telefone, luz e internet.

Lá a acolhida não é nada agradável para os calouros. Eles têm que batalhar uma vaga na república, ou seja, se sujeitar aos mais variados trotes para depois de 6 meses, no mínimo, aí sim se tornar morador oficial.
Um dos trotes comuns do bicho é a obrigatoriedade de ir para a universidade trajando uma placa com dizeres, bastante sagazes, claro. Alguns têm que usar algum tipo de fantasia ou bichinho pendurado no corpo.

Mas isso não é nada perto de ter suas roupas espalhadas pela cidade, em repúblicas que você nunca entrou antes. E depois de um rock daqueles, você precisando de um banho, não acha nada das suas coisas em sua própria casa. Sobe e desce ladeira, corre pra lá e pra cá, pra achar tudo o que seus queridos veteranos fizeram questão de espalhar e esconder na maior cara dura.

E ai daqueles que reclamarem, que deixarem de cumprir uma ordem de seus superiores. Aí é a hora do vento. Quando um “vento” passa pelo quarto de um bicho significa que o seu quarto passou por uma “remodelagem” e as suas coisas foram todas reviradas, desajeitadas e jogadas pelo chão. Quanto maior a burrada, maior a ventania. Em alguns casos, o dono do erro deverá buscar suas coisas no quintal da casa e separar o cocô de cachorro que caiu nelas. É importante ressaltar, ainda, que as regras são sempre bem claras e que nenhum vento é dado sem motivo.

Sobrevivendo ao processo, os moradores da república se reúnem a portas fechadas, sem a presença do bicho, para deliberar se ele será aceito ou não como morador. Admitido, ele receberá seu nome de batismo. Quase sempre é um apelido gozador, que faz alusão a alguma mancada, defeito ou situação engraçada vivida pelo futuro morador no semestre de teste. Se não for admitido, o morador terá que procurar uma outra república, e novamente se submeter ao processo em sua nova moradia.

Boa sorte ou meus pêsames aos tentam vestibular para Ouro Preto! Só uma pergunta: consegue sobreviver?

Por Marcelle Desteffani

República estudantil foi um dos temas do Profissão Repórter

23 abr

Novidade, separação, empolgação, saudade. Foram os motes da reportagem do Profissão Repórter da última terça-feira. O programa retratou a realidade de quem sai de casa para morar fora e tem que aprender a lidar com sentimentos diversos e a ser gente grande.

Enquanto pais ficam aflitos, os filhos deixam suas casas animados. (É bom deixar claro que nem sempre é assim). E na ânsia de ser alguém na vida, os estudantes de ensino médio ou de pré-vestibular deixam para trás pais e namorados (Como já diria Capital Inicial) e tem que encarar uma realidade completamente diferente da que foi vivida até então.

Os repórteres acompanharam duas repúblicas de Ouro Preto, uma feminina, outra masculina. Deu pra perceber que, realmente, a vida lá é bem diferente. É preciso batalhar pra ficar na república, os “bixos” são tratados “a ferro e fogo” durante um período inteiro, carregam placas por todos os lados, fazem toda a tarefa na casa. Mas há também a parte boa: muitas festas, as sociais por exemplo, muitas pessoas diferentes e toda a liberdade que em casa a maioria dos jovens não têm.

Se você perdeu, assista o programa na íntegra no site do Profissão Repórter . Lá tem também fotos de uma festa de integração entre duas repúblicas. Dá pra sentir o gostinho de como funciona o esquema republicano de Ouro Preto.

E tem até fotos das turmas enviadas por universitários espalhados por todo o Brasil. Desde o trote até a formatura. Vale a pena conferir e conhecer as tantas vertentes da vida universitária brasileira.

Já que não deu tempo de enviar foto da nossa turma aí vai uma:

Que situação!!!

Por Marcelle Desteffani

Cadê a arca de Noé?

14 abr

Não tem jeito. Morador de república sempre tem uma história desastrosa pra contar. Essa vem direto de Viçosa. Aproveitando o dilúvio da semana passada em Vitória e no Rio de Janeiro a história de hoje é nada mais nada menos, sobre chuva.

Num belo dia de sol (nada clichê), Dona Tita lavou toda a roupa dos moradores da casa, acumulada há dias. “Mas era muita roupa mesmo. Daquelas de fazer montes e mais montes no sofá”, comenta A.P.

No momento que a ajudante do lar estava passando parte das roupas começou um repentino temporal na cidade. “Mas era muita água mesmo. E tinha o vento também, fortíssimo”, conta o estudante.

A saber: o apartamento que moravam ficava no primeiro andar e era uma das primeiras semanas que A.P. havia se mudado.

A água começa a tomar a área de serviço.

Só foi a chuva começar que iniciou-se também uma inundação. Entrava água por todos os buracos da república. “Dos tanques, dos ralos, das pias. E não parava de jeito nenhum. A água já atingia o chão e não demorou muito para inundar a cozinha e a área de serviço toda”.

É nessas horas que começa o desespero. Só havia A.P. e Dona Tita em casa. E A.P. não conhecia ninguém ainda. Primeiro, ligou pro pai (a cobrar, claro), que nada podia fazer a quilômetros de distância. Depois, acionou a síndica para que telefonasse para um bombeiro hidráulico.

E adivinhem! Quando o profissional chegou já tinha parado a inundação. E mais: o bombeiro disse que nada estava errado. Era só a questão de localização do apartamento. “Só pra melhorar falou que aconteceria mais vezes, e caso precisássemos era só telefonar”, diz indignado o A.P.

Lição

A.P. aprendeu que, morando sozinho:
1) é sempre bom ter crédito no celular;
2) é necessário ter uma lista de contatos na porta da geladeira com telefones de: bombeiros, gás, água, desentupidora, mecânico, eletricista, pedreiro e afins;
3) mesmo ligando para seu pai ou sua mãe dificilmente os problemas vão ser resolvidos, é a hora de aprender sozinho;
4) nunca more no primeiro andar.

#ficadica

Por Marcelle Desteffani

Nada se perde, tudo se transforma

5 abr

Nas repúblicas os poucos móveis e eletrodomésticos tem utilidades infinitas. É o banco que vira suporte para a TV, a geladeira velha que serve de armário, os livros usados se transformam em mesas de canto e tantas outras coisas. Tem gente que inventa cada moda:

A Betoneira (mas quem tem uma betoneira em casa?) já não é mais a mesma há muito tempo. Três estudantes de engenharia acharam uma utilidade no equipamento, que originalmente serve para misturar concreto. A mistura agora é de limão, cachaça, gelo e açúcar: Pra que serve uma betoneira?

Estudante que sai de casa e vai morar na “cidade grande” acha que pode tudo. A sensação de liberdade, de poder fazer o que quer, na hora que quer e sem dar satisfação para ninguém domina o “universo republicano”. O esteriótipo de que república é sinônimo de festa e bebedeira já está impregnado na sociedade brasileira e se confirma no blog Republicanas:

E tem lugar melhor do que uma máquina de lavar para fazer caipirinha?

Caipirinha e Omo, disponível em http://republicanas.wordpress.com/

Por Marcelle Desteffani

Derreti o chuveiro. E agora?

5 abr

Trocar um chuveiro deveria ser uma tarefa fácil em uma república onde moram cinco meninos. E melhor ainda quando um deles é estudante de engenharia elétrica. Doce ilusão.

Uma bela tarde de inverno em Viçosa, onde as temperaturas baixam consideravelmente nessa época, o chuveiro resolve queimar. Marinheiros de primeira viagem, os estudantes compraram um chuveiro novo e resolveram trocar sozinhos.

Um dá um palpite aqui, outro ali e quem se habilita é o estudante de engenharia elétrica (nada mais justo). Primeiro passo: desligar o disjuntor. Por precaução: desligar TODOS os disjuntores da casa. Segundo: desengatar o chuveiro velho. Terceiro: encaixar o novo. E nem precisa saber em qual buraco ligar o fio. Em qualquer dos dois sentidos a corrente elétrica vai passar (belos conhecimentos para um estudante de elétrica). E por fim: ligar o chuveiro.

Aí começa o problema. H.L. (o engenheiro) e todos os seus “ajudantes” acharam que a tarefa estava cumprida. Ligaram todos os disjuntores novamente e com o chuveiro na temperatura mais elevada abriram a torneira.

Nenhuma água caía. Em poucos segundos o banheiro estava coberto de fumaça e o chuveiro com um buraco. O que aconteceu? Antes de alterar a temperatura, era preciso ligar o chuveiro no frio e esperar que ele enchesse de água.

Resultado: um chuveiro novo com a resistência queimada e completamente derretida. Cinco estudantes com cara de pastel se perguntando: como não pensei nisso antes?

Adeus chuveiro!

Por Marcelle Desteffani